Nuno Freitas Castelo

A Famosa TAPzinha

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09 Novembro 2022

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TAP é demasiado importante para a deixarmos cair”, dizia Pedro Nuno Santos, Ministro das Infraestruturas e da Habitação, em junho de 2020, no Parlamento, numa audição da Comis-

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são de Economia, Inovação, Obras Públicas e  Habitação da Assembleia da República. Quanto à verdade disto, só o tempo dirá.

Após mais do que uma tentativa de desestatizar a companhia de bandeira, a mesma viria finalmente a ser privatizada nas mãos do último governo de coligação PSD/CDS, no decorrer do memorando da Troika (assinado pelo governo de Sócrates). No entanto, foi “sol de pouca dura”, já que o governo da Geringonça acabou por reverter este processo, em 2015, ficando com 50% do capital social da empresa, alegando que em circunstância alguma “o Estado poderá perder a maioria de capital da TAP”. A partir daí, começam, ao longo dos anos, as consecutivas injeções de dinheiro público, de forma completamente irresponsável, somando-se já cerca de 3,2 mil milhões de euros. Pergunto-me se esse dinheiro não seria crucial em áreas como a saúde, educação, ou, por exemplo, e talvez mais indispensável, no combate às grandes dificuldades que advieram da crise pandémica e, mais recentemente com a guerra, com vista a mitigá-las, tendo em conta que várias empresas tiveram de fechar portas na sequência destas mesmas dificuldades e se verificou uma brutal perda de poder de compra.

Defendendo que a TAP não deveria ficar sozinha, António Costa e o seu governo sublinharam sempre que a mesma representa a “garantia da nossa independência nacional” e “instrumental para a economia portuguesa” como fundamento para aquilo que agora se conclui como um erro monstruoso. Tudo por se tratar de um caminho estratégico e benéfico para o país, seja lá o que isso signifique. Aliás, nas palavras de Pedro Nuno Santos, a TAP não seria nunca uma “TAPzinha”. No entanto, aquilo que se verificou foi um grande número de despedimentos, cortes de salário, redução de rotas, entre outros. Um autêntico buraco sem fundo para onde se atirou o dinheiro dos contribuintes e que o pôs a voar, literalmente.

O possível impacto do fechar da torneira das contas públicas para a TAP, ou até da possível insolvência da mesma, não seria tão fatal como aquilo que nos querem fazer crer. Desde que exista procura de voos, há sempre quem invista ou uma outra companhia que ocupe este mesmo espaço. A título de exemplo, a Eslovénia deixou cair a sua companhia de bandeira em 2019, e, mais tarde, após pandemia, um conjunto de empresas criou uma nova companhia. Trata-se de um país pequeno e bastante acessível através de comboio, pelo que, em Portugal, seria ainda mais fácil implementar algo do género pelas características do nosso país e pela sua posição geográfica. Como este exemplo, temos também o caso da Hungria, com a insolvência da MALEV e posterior ocupação pela Wizz Air do espaço vazio deixado pela companhia anterior, entre outros. Tal permite-nos concluir que, a queda da TAP não seria assim tão dramática, tendo em conta que é o turismo que alimenta o negócio das companhias aéreas e não o contrário. Escusado será dizer que se trata de uma das maiores injeções de dinheiro público numa empresa na história de Portugal.

No que concerne aos postos de empregos que se perderiam, a TAP tem apenas uma parte mínima do emprego do país, e, mesmo com a injeção de dinheiro, cerca de 30% dos empregos se iram perder, sendo totalmente desproporcional do ponto de vista dos empregos que seriam salvos. A Comissão Europeia já veio pôr travão ao governo, proibindo que nos próximos 10 anos, a partir de janeiro de 2023, o governo português ponha mais um cêntimo que seja nesta empresa, sendo a última injeção em dezembro deste ano.

Não deixa de ser irónico que agora se venha falar em reprivatização desta companhia aérea, e que, do dia para a noite, a posição do governo em relação a esta matéria seja diferente, mas mostrando exatamente a mesma convicção na sua argumentação, remetendo para uma total falta de coerência. Agora, espante-se, não só o primeiro-ministro admitiu, no Parlamento a pretensão de acelerar a privatização da TAP (que supostamente era do povo) o mais rapidamente possível, como a possibilidade de se perder dinheiro com essa mesma venda, isto é, de não se conseguir reaver na totalidade os 3,2 mil milhões de euros injetados pelos portugueses. Tudo isto quando se podia simplesmente não ter revertido o processo de reprivatização em 2015, que teria desresponsabilizado os contribuintes em relação ao futuro desta companhia, e certamente teria um desfecho mais positivo.

Quem paga tudo isto? Nós, claro. O que seria dos socialistas sem o dinheiro dos contribuintes...