David Stamm

Arctic Monkeys – The Car: Track by Track Review

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29 Outubro 2022

Q

uatro anos de espera. Depois de Tranquility Base Hotel & Casino, os Arctic Monkeys voltam aos palcos com The Car.

Depois da mudança radical (relativamente ao estilo musical) em 2018, todos os fãs estavam ansiosos para ver qual seria o próximo coelho a sair da cartola de Alex Turner. As indicações referidas antes do lançamento do álbum que davam a entender que a banda voltou a meter os “pés no planeta terra” (referência ao conceito adotado no último álbum, pois Tranquility Base Hotel & Casino era um hotel na lua) e que o álbum foi gravado, por parte, em La Frette (estúdio perto de Paris, local de inspiração do álbum anterior) foram sinais claros que este novo disco iria ser uma conti-

nuação deste estilo glamouroso adotado no passado LP. Sinais estes que se confirmaram, mas passemos para as faixas:

1. There’d Better Be a Mirrorball – O primeiro single do álbum foi um bom aperitivo para termos uma noção da linha que os Monkeys iriam seguir para este álbum. A lindíssima parte inicial da música sofre uma rutura cerca de 30 segundos depois de começar que faz lembrar o momento icónico do filme “Psycho” de Hitchcock – facadas simbolizadas através de um piano. “Don’t get emotional, that ain’t like you”. Que verso para começar esta jornada, uma jornada melancólica e introspetiva. Melancolia da forma mais pura e bonita possível, que representa toda a atmosfera deste álbum.

2. I Ain’t Quite Where I Think I Am – A segunda faixa do álbum (e o terceiro single lançado pela banda) sobressai no álbum, porque é extremamente groovy. A guitarra deve ter sido retirada dos Abbey Road Studios, pois parece que foi usada pelos Beatles na gravação de Let It Be devido ao seu som vintage e psicadélico (para não falar na letra “picante” à Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, o álbum de estreia da banda de Sheffield).

3. Sculptures Of Anything Goes – Provavelmente, a música mais interessante que a banda lançou até agora por ser tão diferente de todo o resto. Para além da “Your Mom” – Joke épica a meio da música, o instrumental é claramente influenciado pela onda de Industrial Rock que surgiu nos anos ’90 (ouve-se muito Nine Inch Nails nisto) e pela principal influência dos Arctic Monkeys desde 2009, os Queens of the Stone Age. Quando ouvi a música pela primeira vez pensei logo (até porque tinha visto o filme há umas semanas no cinema): “Isto podia tão estar na banda sonora do Blade Runner”, um filme que Alex Turner adora.

4. Jet Skis On The Moat – Esta deve ser, pelo menos a nível musical, a minha música favorita deste álbum. A guitarra oscilante e os vocais fantásticos de Turner carregam esta música às costas. Nem quero dizer muita coisa acerca da música, é ouvir e mais nada.

5. Body Paint – O segundo single lançado pela banda é, possivelmente, a música mais “completa” per se deste conjunto de faixas. O Leitmotiv introduzido pelo piano que se vai alongando pela música, as guitarras que apoiam o mesmo, a letra triste e metafórica relativamente a uma traição numa relação e o solo de guitarra no fim da música. Tudo funciona. Há uma diferença entre “a música favorita” e “a melhor música” e eu tenho de admitir que esta é a melhor música do álbum, apesar de não ser a minha favorita.

6. The Car – Eh pá, não sei, ainda não consigo gostar desta a 100%. Alex Turner já referiu numa entrevista à BBC que esta deve ser a música mais caótica do disco. Por muito que apoie todo o caos do mundo na música, este caos não é do “bom caos”. O único ponto fraco deste disco, a meu ver. É uma pena, porque estamos a falar da “title track”, o ponto central do álbum.

7. Big Ideas – Esta deve ser, pelo menos a nível lírico, a minha música favorita do álbum (esta repetição frásica foi intencional, já agora). Eu adoro ver esta “self-awareness” de Turner relativamente à música que tem lançado e produzido e o envolvimento de orquestras nas suas músicas mais recentes. Esta mensagem também é transmitida de uma forma muito evidente a partir do momento em que entra o instrumental apoiado pela tal orquestra e o solo de guitarra sombrio.

8. Hello You – Uma das músicas mais cativantes (uma espécie de “Knee Socks” deste disco), mas mais uma vez: estes violinos, eles estão em todo o lado... A “bridge” é uma das partes mais subvalorizadas deste LP.

9. Mr Schwartz – Será que estamos a falar de Delmore Schwartz? Turner não admitiu, mas também não desmentiu a teoria que andou a passar pelos fóruns da Internet que a lista de reprodução “Del Schwartz” pode ser a coletânea de influências deste álbum (recomendo muito ouvi-la, já agora, tem imensa música francesa interessantíssima). Um “fingerpicking” maravilhoso no início que constrói uma música muito subtil, mas extremamente elegante.

10. Perfect Sense – Meus amigos, chegámos ao fim do álbum. Nota-se, para ser franco. “If that’s what it takes to say, ‘good night’, then that’s what it takes”. Musicalmente, este deve ser o ponto alto da orquestra. Efetivamente, esta música faz “Perfect Sense” para dizer adeus aos ouvintes. Duvido que seja um “adeus”, é mais um “até logo, pessoal, abraço” casual que se diz no fim de uma festa.

Conclusão: só mais um excelente disco dos rapazes – que agora se tornaram em verdadeiros senhores – de Sheffield. A banda anda cada vez mais madura –  é estranho pensar que amadureceram ainda mais desde 2018. Esta onda épico-orquestral afirma-se cada vez mais na pessoa de Alex Turner e é de louvar o quão bem o resto da banda se anda a adaptar a isto (tanto Jamie Cook, como Matt Helders ou Nick O’Malley estiveram extremamente bem). Outro aspeto a apontar: há que ter muito respeito pela coragem que a banda tem por não ceder à pressão de lançar “hits”. Estas músicas não são, nem perto, algo semelhante ao que foi lançado no passado (“Do I Wanna Know?”, “Fluorescent Adolescent” ou “R U Mine?”) e não se vendem tão facilmente. A comunidade de fãs anda mais dividida que nunca e ainda bem que é assim. Uma nota pessoal: estar de Erasmus e ter um álbum destes durante esta altura é um autêntico “pequeno prazer da vida”. Obrigado, Arctic Monkeys, continuem assim, mas não demorem mais quatro anos para publicar o próximo.