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Duarte Melo de Figueiredo

Entrevista a Carlos Pereira Marques

Sr. Embaixador de Portugal na Índia

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14 Março 2021

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Quando colocado na sua capital, o diplomata assegura, na retaguarda, a execução da política externa do seu país, representando-o também, frequentemente, no exterior, ao participar em reuniões e encontros internacionais.

No mundo atual, em que a difusão da informação é instantânea, o fator humano assume, nas relações diplomáticas, uma importância central, garantindo uma fineza de análise e uma filtragem dos dados, que escapam às novas tecnologias. As potencialidades que advêm do estabelecimento de contactos pessoais mantêm-se também imbatíveis e ganharam até um valor acrescido.

Não tendo Portugal o peso de outras potências, em que medida atua o nosso país no Concerto das Nações e como exerce influência?

R: Afirmando-se como um país fiável, dialogante e tolerante, que procura estabelecer pontes e reunir consensos, mantendo-se, porém, fiel aos seus princípios e às suas alianças. Este nosso posicionamento – que assumimos com coerência, tranquilidade e determinação – tem-nos granjeado o respeito generalizado do Concerto das Nações, não sendo por acaso que, nos últimos anos, vários portugueses têm desempenhado os mais altos cargos internacionais.

Qual é a rotina de trabalho de um Embaixador Portguês?

R: Uma rotina flexível e que se adapta às circunstâncias, já que as solicitações a corresponder e os compromissos a cumprir são muitos e variáveis, cobrindo setores de atividade assaz diversos e tipos de interação bastante distintos. A participação em encontros de trabalho, diligências, reuniões, conferências e eventos da mais diversa índole - cobrindo as vertentes política, económica, cultural e social – é uma componente significativa desse dia a dia, a que se vem juntar um trabalho constante e aturado de transmissão de informação à capital.

De que forma o curso de Direito serve um embaixador?

Quais são exatamente as funções de um diplomata, de um Embaixador em particular, nos dias de hoje?

R: Cabe a qualquer diplomata, e por maioria de razão a um Embaixador, quando colocado no estrangeiro, representar o seu país junto do Estado onde está acreditado. Isto implica, antes de mais, fomentar o relacionamento político, e económico, entre o seu país e o Estado acreditador, explorando e potenciando todas as sinergias que possam existir entre os dois. A promoção da imagem do país representado, nas suas vertentes económica, turística e cultural, desempenha, neste contexto, um papel fundamental.

A propósito do encontro dos 27 Primeiros-Ministros da União Europeia que terá lugar em Maio do corrente ano, no Porto - enquadrado na Presidência Portuguesa da UE - e em que estará presente em virtude da participação extraordinária do Primeiro-Ministro Indiano (que bilateralmente se reunirá de seguida com o Primeiro-Ministro Português), poderá uma aproximação económica e política entre o Ocidente e a Índia ser um bom instrumento para mitigar a crescente influência chinesa? Pode Portugal, por força da sua História e dos consequentes laços com o Subcontinente, desempenhar um especial papel neste processo?

R: Portugal defende a importância, no mundo em que atualmente vivemos, de uma Ásia multipolar e, consciente do papel crucial que caberá à Índia desempenhar nesse contexto, colocou o reforço das relações desse país com a Europa no topo das prioridades da sua atual Presidência da União Europeia. O Encontro Informal de Líderes da Índia e da União Europeia, a decorrer no Porto, por nossa iniciativa, constituirá, sem dúvida, pelo seu carater inédito, um momento alto dessa desejável aproximação, que esperamos se possa vir a traduzir em resultados concretos.

Como poderá Portugal explorar da melhor forma a relação com o antigo Império? Seria possível um maior estreitamento diplomático, político e económico entre estes países à semelhança do que acontece com a Commonwealth Britânica?

R: Portugal mantém relações de grande proximidade com todos os países de língua oficial portuguesa, reforçadas pela pertença comum à CPLP, cujas virtualidades sempre defendemos. A prioridade que dispensamos a este relacionamento privilegiado é, de resto, uma constante da política externa portuguesa do Portugal democrático. É assim com orgulho que vemos países tão diversos como o Luxemburgo e a Índia manifestarem interesse em se associarem duradouramente à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

R: No meu caso particular, o curso de Direito proporcionou-me uma estrutura mental e uma metodologia – assentes na racionalidade, na clareza, na concisão e na sistematização – que me têm acompanhado ao longo de todo o meu percurso profissional e que me continuam ainda a ser da maior utilidade. Como costumava dizer um carismático Embaixador português, “os diplomatas são os especialistas do método”.

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