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David Stamm

Mais amor para os Vaccines, por favor

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07 Janeiro 2021

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J

ulgo que todos estamos absolutamente fartos de ouvir falar sobre vacinas. Liga-se a televisão e é logo "vacina

com problemas de produção”, fala-se com amigos e é tudo a dizer “eu só quero ser vacinado para ter um verão porreiro, mais nada”. Spoiler: não vou falar sobre vacinas, não se preocupem.

Neste artigo quero abordar uma banda extremamente importante no rock moderno, os Vaccines. Esta banda, formada no ano de 2010 em Londres, integra – atualmente – os membros Justin Hayward-Young (voz e guitarra), Freddie

Cowan (vocais de apoio e guitarra), Árni Árnason (baixo e vocais de apoio), Timothy Lanham (teclas, guitarra e vocais de apoio) e Yoann Intonti (bateria e vocais de apoio). O género mais tocado pela banda é indie rock, contudo explicarei mais para a frente que esta banda já nem se engloba nas típicas bandas de indie rock. Para percebermos melhor a banda em si temos que olhar de forma individual para os álbuns que lançaram até à data de hoje (4 álbuns, neste caso).

O primeiro disco lançado pela banda, “What Did You Expect From The Vaccines?”, foi publicado em 2011 e ganhou o prémio de “best-selling debut album of 2011 in the United Kingdom” (traduzido: álbum de estreia mais vendido de 2011 no Reino Unido). Foi precisamente aí que conheci a banda. Lembro-me de estar a jogar FIFA 12 e ouvir uma música chamada “Wreckin’ Bar (Ra Ra Ra)”. Desde aí comecei a seguir a banda. Ouvi o álbum todo (comprei o CD pouco depois de ter descoberto a banda) e apaixonei-me por punk rock: foram tempos muito fáceis. Aliás, em 2012 a nossa maior preocupação era o filme “2012” tornar-se realidade. Cá estamos nós em 2021 com uma pandemia global. Enfim, voltando ao álbum: música rápida, “catchy hooks” e acordes fáceis para tocar na guitarra. A influência dos Ramones é inegável, nota-se particularmente nos refrões das músicas. O álbum começa logo “a partir” com a música anteriormente mencionada, mas também tem as suas partes mais calmas com músicas como a “A Lack of Understanding” e a “Wetsuit”. Contudo, as faixas que mais sobressaem são a “If You Wanna”, “Post Break-Up Sex” e “Nørgaard”. Todo o álbum retrata muito bem o que é ser um adolescente ou um jovem adulto. Para quem ainda não ouviu nada dos Vaccines, mas gosta de indie rock: está aqui o ponto de partida, meus amigos.

O segundo LP, “Come of Age”, foi lançado em 2012 e – no fundo – foi uma continuação do primeiro álbum. Não é algo que eu aprecie (continuar a mesma coisa), mas eu entendo que uma banda queira estabilizar o seu som enquanto coletivo musical nos primeiros dois ou três discos. Aliás, esta transição do primeiro para o segundo álbum é bastante comparável aos dois primeiros álbuns dos Arctic Monkeys. A “base musical” é a mesma, contudo existem algumas diferenças. Claramente a banda não iria fazer tudo igual, porque – e isto acontece a qualquer pessoa que toque guitarra – acabariam por experimentar efeitos novos nas guitarras. E músicas como a “No Hope” ou a “I Always Knew” demonstram exatamente isso. Fuzz (um tipo de distorção bem mais pesado), Tremolo e Delay (muito mais expressivo que no álbum anterior) são meros exemplos dos efeitos usados. Mesmo a bateria está mais complexa, acaba por fugir um pouco ao som de punk do primeiro álbum. Se me perguntassem há dois anos o que acho deste álbum, a minha resposta seria muito indiferente. Há provavelmente dois meses peguei nele outra vez e agora adoro. Aliás, nunca vou perceber o porquê de não ter gostado à primeira, até porque este álbum tem duas das minhas músicas preferidas deles, “Teenage Icon” e “I Wish I Was a Girl” (tem uma pinta parecida com Queens of the Stone Age). Não é o melhor, mas é extremamente sólido como um todo.

Partiremos agora para o disco mais controverso da banda, “English Graffiti”. Um disco que levou a banda para uma direção completamente diferente e que dividiu os fãs. Lançado em 2015, alturas em que surgiram bandas como Royal Blood e Tame Impala (aí é que se tornaram realmente conhecidas), este álbum continua a ser dos álbuns mais subvalorizados do rock moderno que conheço. São os Vaccines? São. É diferente? Sim, e ainda bem que é. Eu sei que há muita gente que pergunta sempre “Não podiam ter feito algo parecido com o primeiro álbum”. Não sejam esse tipo de pessoa, por favor. A sério, não há nada mais aborrecido do que bandas que lançam “o mesmo álbum” 10 vezes como os AC/DC. Sim, os AC/DC. Eu adoro os AC/DC, mas sejamos sinceros: depois do “Back in Black” não houve mais nenhum álbum verdadeiramente notável da banda. O “English Graffiti” tem de tudo e não foge ao som, é incrível (não é caótico, portanto). De “Handsome” (música perfeita para abrir um concerto), passando por “Minimal Affection” (esta faixa tem um som extremamente à Strokes), a “Want You So Bad” (faz-me lembrar da onda do “Turn Blue” dos Black Keys).  Guitarras diferentes (acho que passaram a usar mais Rickenbacker nessa altura), bateria inovada com ritmos pouco convencionais (tal como a utilização de “drum machine”) e um baixo bem forte a segurar as músicas. Nada a apontar, foi corajoso por parte da banda dar este passo e valeu definitivamente a pena, porque 2018 surgiu – na minha opinião – o melhor álbum até à data.

Depois de Pete Robertson (vocais de apoio e bateria) ter saído da banda em 2016 (pouco depois do EP “Melody Calling” ter sido gravado) juntaram-se dois novos membros que completaram o novo som dos Vaccines. Podemos falar de uma “nova era” dentro da banda, para ser mais claro. O estilo de roupa dos membros mudou bastante (passaram de casacos de ganga para camisas elegantes, por exemplo) e a componente musical foi novamente para outra direção. Com o álbum “Combat Sports”, lançado em 2018, os Vaccines passaram a ser uma banda de retro dos anos 80. Sim, isto anda tudo um bocado estranho, porque ninguém entendeu se ele estão a fazer isto a brincar ou se realmente estão a gostar desta onda. Seja como for: é brutal. Parece que pegaram em Big Star e T-Rex e deram um brilho do século XXI à coisa. Nem sei por onde começar, este álbum é tão bom. “Put It On a T-Shirt”, “Your Love Is My Favourite Band”, “I Can’t Quit”, entre outras. Tudo excelente, tudo mesmo. Para quem não ouve rock regularmente: este é o vosso ponto de partida. Façam um favor aos vossos ouvidos e ouçam uma das músicas mencionadas.

2021: onde é que estamos? Esta banda tem (no momento em que estou a escrever este artigo) 1 576 649 ouvintes mensais. É bom, claro, mas eles continuam a ser um “opening act” (antes da banda principal atuar há sempre uma banda que “abre” o concerto) para outras bandas. Abriram concertos para os Rolling Stones, Arctic Monkeys, Red Hot Chili Peppers. Até aqui tudo bem, sendo que estas três bandas são lendárias. Agora, quando um amigo meu me contou que viu os Vaccines ao vivo por terem aberto um concerto para os Imagine Dragons, eu perdi a cabeça. Os Imagine Dragons? Não quero estar a ferir os sentimentos de ninguém, a sério, mas alguém vai ter que dizer isto: os Imagine Dragons são a pior banda de “rock” (entre aspas, porque nem tudo o que contém uma guitarra elétrica pode ser considerado rock) que anda por aí. O primeiro álbum até foi engraçado, tudo bem, mas o que veio a seguir foi mais do mesmo. Mais do mesmo, mas pior. Muito pior. Todas as músicas são compostas da mesma forma e baseiam num refrão extremamente repetitivo que fica na cabeça das pessoas. Ok, chega de ódio à música dos Imagine Dragons, vamos voltar ao tema principal. Os Vaccines lançaram há pouco tempo uma gravação de Demo (as bandas fazem este tipo de gravações antes de irem para o estúdio gravar tudo perfeitinho) de uma música chamada “I Never Go Out On Fridays”. Irónico, afinal não é só o nome da banda que se aplica a esta altura que estamos a viver. Para além disso também irão lançar um EP de “covers” (músicas de outros artistas tocadas pelos Vaccines) daqui a nada. Mas muito mais importante que isto tudo: o cantor, Justin Hayward-Young, já falou várias vezes sobre o novo álbum. Ninguém sabe muito bem o que vem aí, sendo que Justin e Timothy andaram a trabalhar num projeto à parte chamado “Halloweens” (recomendo vivamente a música “My Baby Looks with Another”). Contudo, Justin já disse no Twitter e em entrevistas a revistas e estações de rádio que o próximo álbum iria ser “o melhor deles” e que é uma “fusão entre o segundo e terceiro (álbum)”.

Dito isto, caríssimos: enquanto não há vacina para uma grande parte de nós, ouçam uma boa dose de Vaccines para passar bem o tempo. Um abraço.

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