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Duarte Melo de Figueiredo

Maria Callas

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03 Fevereiro 2021

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A

perfeição é quase sempre inatingível. Primeiro, porque cada um de nós concebe, quanto a determina-

da coisa, a sua ideia de perfeição, fazendo assim esta palavra adquirir uma infinidade de significados relativamente a uma mesma coisa. Segundo, porque mesmo a existir consenso à volta do que deve ser a perfeição em determinada coisa, é realmente dificílimo ao executante (partindo do princípio de que ele partilhará da concepção de perfeição da maioria dos que o julgam) atingir essa tal perfeição, e por mais que o queira.

Ora Maria Callas é talvez dos poucos Seres Humanos a ter conseguido, numa área tão relativista como o é a produção artística, ser perfeita. E conseguiu-o pois foi capaz de concretizar o seu entendimento de perfeição de forma tão perfeita que o impôs mundo fora como o modelo da própria perfeição, destruindo qualquer relativismo. Arredou assim aqueles dois obstáculos.

Maria Callas, filha de pais gregos, nasceu em Nova Yorque a 2 de Dezembro de 1923, e morreu em Paris a 16 de Setembro de 1977. Enquanto soprano, dedicou a sua carreira à Ópera, sobretudo italiana.

A principal base da sua formação foi o Conservatório de Atenas, onde foi aluna de Elvira de Hidalgo. Na segunda metade da década de 40 inauguraria a sua brilhante carreira.

Maria Callas tinha um dom natural que era a sua voz: a voz de uma soprano “pura” que conseguia percorrer registos agudíssimos com uma força, segurança, afinação e estabilidade vocais únicas. Mas mais do que uma mera afortunada por esta dádiva, “La Divina” era uma incansável trabalhadora, uma perfecionista obsessiva.

Restaurou, como sua grande mestre, a técnica do Belcanto - estilo de canto desenvolvido pelas Óperas Italianas durante os Séculos XVII, XVIII e XIX, e cujos apanágios são o rigorosíssimo controlo da intensidade vocal; uma curta variação na dinâmica (a intensidade do som é geralmente constante); uma clara distinção entre o tom de diapasão (obtido através de um baixo posicionamento da laringe) e o tom de flauta (produzido quando a laringe se encontra numa posição superior); além de uma tremenda agilidade na passagem entre estes mesmos tons e uma clara e declamada enunciação das palavras. Técnica moribunda em meados do Século XX, Maria Callas ressuscitou-a e fê-la de novo popular.

Paralelamente a todo o domínio técnico, Maria Callas foi uma sublime actriz, não se bastando com o debitar de texto e notas, mas encarnando em palco as personagens operáticas que lhe cabiam, e com tal plenitude que as suas actuações mais pareciam uma cena autêntica e não fingida, a transmissão de sentimentos verdadeiros, a partilha de uma história com o público como se personagem e intérprete fossem um só ser.

Porém, a vida da própria Callas seria digna de um libreto de Ópera. Uma Diva pura dentro e fora dos palcos com uma presença arrebatadora e inquietantemente transbordante de carga dramática.

Figura imponentíssima, pejada de jóias e coberta por magníficas peles de vison. Uma semideusa que paira algures entre o transcendente e o palpável, que jamais se despia do lirismo operático. Movimentando-se no seio dos mais altos círculos socio-aristocráticos. Uma mulher apaixonada e totalmente devota a uma tórrida relação amorosa com Aristóteles Onassis desde 1958 até à morte do magnata em 1975 (e mesmo depois de este se ter casado em segundas núpcias com Jackeline Kennedy, em 68).

Apresentou-se a cantar uma Ópera inteira pela última vez em 1965 - Tosca, em Covent Garden -, havendo o seu corpo vindo a ressentir-se e a não responder como a soprano gostaria ao violento esforço físico e emocional a que o sujeitara (e que é indissociável do canto lírico bem executado); por outro lado, sentia-se crescentemente dilacerada entre a dedicação ao seu amor e à carreira artística, porquanto cada vertente, se apropriadamente desenvolvida segundo os seus padrões de exigência, tomar-lhe-ia o tempo e a energia por inteiro. Optou pelo amor. E apesar dos altos e baixos (ficou profundamente ressentida pelo casamento de Onassis com Jackie), Callas e o armador grego nunca se largariam.

Nos anos 70, e nas vésperas da sua precoce morte às mãos de um súbito problema cardíaco, a sua voz dava sinais de formidável recuperação e amadurecimento.

Callas foi perfeita. Reconhecida em todo o mundo como a melhor, a soberana incontestada da Ópera, criando-se a si própria como modelo de Diva. Pôs em prática aquilo que achava ser perfeito e fez com que essa manifestação fosse amplamente acolhida e vigorosamente defendida.

Dotada de uma versatilidade única, a potestade projectava graves e agudos com igual e surpreendente facilidade, profundidade, e potência (veja-se a ária L'amour est un oiseau rebelle, da Ópera Carmen, de Georges Bizet, onde acaba frases numa bolha grave e consistente cá em baixo). 

Foi uma personagem de uma mirífica época - álacre e onde a estética era um fim em si mesma - esses “trinta gloriosos” do pós-guerra.

Há os Deuses no Olimpo e depois há Maria Callas na Terra.

Peço ao leitor que a oiça e veja (pois foi feito registo audiovisual), na ária Casta Diva, da Ópera Norma - do compositor Vincenzo Bellini -, na Ópera do Palácio Garnier, em Paris, ano de 1958. Esses breves minutos farão certamente melhor trabalho do que este laudatório texto.

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