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Duarte Melo de Figueiredo

Indifference is the revenge the world takes on mediocrities

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19 Dezembro 2020

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A

mediocridade, embora irritante e por vezes impossível de se expurgar daqueles que pelos lugares que ocupam se deveriam dela afastar, não passa pela fina peneira da História.

Os actores (contrariamente aos espectadores) que figuram na grande peça que é a Histórica da Humanidade, esses que constroem em cada pequena ou grande realidade a própria História, esquivam-se à mediocridade. Ora virtuosos, ora ominosos, mas sendo-o sempre destacadamente, a cores fortes. Os “bons” são “bons” e os “maus” são “maus”, salvando ou desgraçando o rumo das coisas e jamais deixando-se afectar por tibieza ou normalidade, por mediocridade.

O legado destes heróis ao estilo hegeliano é profundo. A História seguirá inexoravelmente um caminho por eles total ou parcialmente desbravado.

Como o pôs Oscar Wilde: “Indifference is the revenge the world takes on mediocrities”.

Na mais recente temporada da série “The Crown” (produzida e transmitida na Netflix e que trata pessoas verdadeiras, relevantes e, maioritariamente, vivas), aborda-se com falta de correcção e acuidade um dos personagens. O personagem em causa é a honorável Margaret Thatcher, Primeira-Ministra do Reino Unido entre 1979 e 1990, hiato sem precedentes em todo o Século XX e o maior desde 1827 - data em que cessou funções Robert Banks Jenkinson, 2º Earl (Conde) de Liverpool, tendo-as exercido entre 1812 e 1827.

A série olha para esta senhora como quem olha desatenta e desinteressadamente um Caravaggio ou um Tintoretto e, não obstante o seu peso, a sua exuberância cromática e o seu dramatismo, a sua força enfim, se detém apenas na moldura, e moldura suja e coberta de pó, pois ela própria é digna de contemplação quando devidamente tratada.

Mrs. Thatcher surge assim como alguém nem claramente “boa” nem propriamente uma vilã, somente uma mulher com alguns traços peculiares que pouco de benéfico parece ter trazido ao seu país e ao mundo. Representam-na, portanto, como mediocremente má.

Analisando desapaixonadamente a História, e mesmo sem entrar em leituras exaustivas, rapidamente se percebe que não estamos perante uma figura medíocre, que indiferentes e intocados tenha deixado os coevos.

Governou 12 anos, mais do que qualquer outro em 163 anos; pela assertividade das suas convicções, inculcou amor e ódio; contribuiu decisivamente para a queda de um regime comunista totalitário; reverteu o declínio económico e de prestígio de que padecia o Reino Unido; restaurou a confiança no Liberalismo, que tinha vindo a ser perdida no seu país, e na Europa em geral, finda a II Guerra; foi a primeira mulher chefe de governo num país Ocidental. Independentemente de qualquer juízo valorativo que se lhe possa fazer, Mrs. Thatcher não foi medíocre.

Fazendo agora esse mesmo escrutínio valorativo do seu legado, afirmo que ele é glorioso deveras, que enriqueceu a existência do Homem ao invés de a secar.

Era uma mulher que não cedia a quaisquer pressões, que não se desviava minimamente em relação às suas concepções sociais, económicas, e políticas. Uma mulher que revitalizou uma economia moribunda através de um regresso ao Liberalismo Clássico e seguindo a Doutrina de Friedrich Hayek, beneficiando ricos e pobres, e não os primeiros à custa dos últimos, como é frequente pensar-se, pois ainda que ambos conservassem níveis de rendimento consideravelmente distantes no fim do seu mandato, em vez de essa diferença ser de, passo a metáfora, a de um 1º para um 7º andar de um prédio, seria antes a de um 7º para um 13º. Uma mulher que enfrentou, e venceu, um regime proto-fascista na Argentina e, ao fazê-lo, preservou a integridade ameaçada do Reino Unido e seus Territórios Ultramarinos. Uma mulher que, em conjunto com o Presidente Americano de então, Ronald Reagan, o Papa João Paulo II, e o próprio Mikhail Gorbachov, precipitou diplomaticamente a queda da URSS - um regime de índole totalitária apenas comparável à Alemanha Nazi mas ainda mais letal - e a libertação da Europa Oriental do férreo jugo comunista. Uma mulher que nunca fez depender de ninguém, para além de si própria, o seu brilhante percurso académico e a sua ascensão e triunfos na política (um mundo onde o sexo feminino era praticamente ausente).

Por tudo isto, não só objectivamente é uma pessoa que fez História, livrando-se por isso da mediocridade, como, a meu ver e pelo supra descrito, a fez e conduziu no caminho certo, uma antípoda de tiranos que apesar de tudo (e sem mediocridade) também a fazem e conduzem. Afastou ainda mais (definitivamente?) a servidão do caminho dos Britânicos.

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